terça-feira, 27 de agosto de 2013

"Não existe racismo no Brasil."

Esse eu queria dedicar pra quem diz que no Brasil não tem essa de racismo. Que aqui é um lar aberto para todas as cores e etnias. Pra todas essas pessoas brancas e de classe média-alta que são capazes de dizer semelhante abobrinha.
Vamos lá.

Eu não sou branca.
Eu tenho cara de índia. Cara de índia, corpo de índia, cabelo de índia. Mas não essas índias exóticas e bonitas da tv. Eu tenho cara de índia latino-americana, que segundo as pessoas, não são muito bonitas. "Cara de boliviana" como dizem as pessoas, tentando fazer não parecer tão pejorativo quanto é, quando dizem.
Eu sou uma mulher normal. Não muito alta, não muito baixa, não muito bonita, não muito feia.
Mas neste final de semana que passou, eu me senti a pior das criaturas. E por um breve momento de dor, eu quase tive vergonha de ser quem sou.

Eu estava com meu marido e minha filha num conhecido shopping da capital. Nunca tinha ido, mas já sabia a fama que tinha: de pessoas "arrumadas e bonitas". Olhando as pessoas ao meu redor percebi na hora que eu, claramente não me encaixava nessa descrição. Não estava arrumada, estava usando uma sapatilha barata (como todos os sapatos que eu tenho) uma camiseta branca que não veste bem em mim, esgarçada de tanto tirar o peito pra amamentar, uma calça legging qualquer, desbotada. Sem maquiagem, uma trança feita em segundos. De mochila nas costas, com minha filha nos braços.

Sentamos em uma mesinha enquanto esperávamos um açaí que tínhamos acabado de pedir. Ao meu lado, conversavam duas meninas muito bonitas. Brancas, loiras, maquiadas. A Luna estava no meu colo.

No momento em que eu sentei, uma das meninas olhou pra mim de cima a baixo, de uma maneira que até me incomodou, me senti invadida. E ela me olhava em cada detalhe, cada gesto. Em um momento até olhei de volta, de repente ela me conhecia de algum lugar. Mas como nesse momento, ela desviou o olhar, eu percebi que não éramos conhecidas não. Nossos mundos estão bem mais separados do que parece. Não era esse o motivo pelo qual ela me olhava de um jeito tão fulminante.

As bolsas delas estavam colocadas nas cadeiras, entre elas e nós.
Quando eu me sentei, esta moça olhou pra mim, deu um cutucão na sua amiga, me apontou com os olhos e disse para ela: "quer que eu coloque sua bolsa do MEU lado?" para o que esta outra moça distraída que percebeu o gesto de sua amiga e olhando pra mim disse: "é melhor, pode pôr sim", enquanto me olhava de cima a baixo também.

Eu fiquei uns minutos meio atordoada, pensando se não tinha sido coisa da minha cabeça a cena que eu tinha acabado de presenciar. E comecei a pensar que não tem outro motivo pelo qual elas fariam toda essa cena a não ser pensar que eu, por algum motivo, roubaria a bolsa dela, ou as coisas dela ou algo assim. Não sei exatamente o que é que ela estava pensando sobre mim. Mas definitivamente não era algo muito positivo.

Fiquei me perguntando por que ela achou que não era seguro deixar as bolsas ao meu lado, mas era seguro deixá-la ao lado do Rob, que como tinha acabado de sair do trabalho, estava arrumado, penteado e cheiroso. Tentei não pensar que talvez fosse porque além de uma aparência mais "bem cuidada", ele fosse um homem. E branco. E não branco desses alemães, mas bem mais branco que eu, com certeza.

Fiquei pensando se ela não tinha desocupado a cadeira pra eu sentar a Luna, mas eu não demonstrei a mínima intenção de colocá-la naquela cadeira, nem a Luna de sair de perto de mim. Também acho que ela não teria esse tato. Não era uma gentileza, era uma medida de proteção.

O pior de tudo, é que com a minha maravilhosa visão periférica que uma década de dança me fez treinar bem, eu observava a linguagem corporal dela, incomodada comigo, ainda me olhando, ainda olhando o que eu fazia com as mãos, detendo-se em cada detalhe da minha roupa barata, enquanto ela fingia mexer no celular e fingia engatar uma conversa com a amiga, que imediatamente se pôs de prontidão caso eu resolvesse roubá-las, sequestrá-las ou qualquer coisa do gênero. Com certeza ela faria bom uso de uma visão periférica, se tivesse. Mas pelo jeito, não tinha.



Fiquei alguns minutos conjeturando sobre o que tinha acabado de acontecer. Fiquei pensando que não tinha nada a ver ela guardar de repente o iPhone, esconder a carteira, mexer no cabelo inquieta, incomodada.

E de repente, a amiga dela olhando nosso açaí que já tinha chegado disse: "acho que vou buscar um açaí, vamos lá?" para o que ela respondeu: "pode ir lá você, eu fico aqui com as coisas e depois eu vou".

E pra todas as coisas que eu pensava, imaginava que não tinha outra explicação. Eu me perguntava o que é que eu tinha feito pra ela sentir esse pavor de mim, de que eu pegasse suas coisas, de que eu fizesse algum mal pra ela ou pra amiga dela.

Ela era uma menina muito bonita. Dessas que pintam o cabelo, sempre andam com roupas novas, as unhas feitas e a pele linda.
Nós definitivamente não pertencíamos ao mesmo mundo.
E de alguma forma, ela se sentia incomodada de uma pessoa "como eu" estar sentada ao lado dela, comendo no mesmo lugar que ela.

 Você também pensa assim?

Por um breve momento fiquei triste de ser quem sou. Mas fiquei aliviada da minha filha ser tão mais branca que eu, tão mais bonita.

Me lembrei de tantas vezes que entrei em lojas bonitas onde me sentia assediada por seguranças e vendedores.

Me lembrei de uma vez que um rapaz com o cabelo raspado me agrediu ao passar, e eu - grávida de 8 meses - tive que me amparar em outra pessoa, de tão forte que foi o empurrão.

Me lembrei de passar na alfândega com o tratamento hostil que a Policía Federal dava a mim e a minha vó (uma senhora tão escura quanto eu), mas não dava para outras avós ou mães brancas e loiras que passavam pela mesma burocracia que nós. Não que houvesse muitas pessoas brancas e bem-vestidas fazendo a viagem de ônibus Chile-Brasil, claro.

Me lembrei de tantas vezes que andei pelas ruas com uma amiga que tem um lindo bebê branquíssimo, gordinho e de olhos azuis ao qual as pessoas chamam de "nossa, que bebê lindo!" "que príncipe!" enquanto viram pra minha filha e dizem "ah, mas você também é muito bonita!"



Pensei quantos anos da minha vida eu fiquei ignorando esse racismo que sofro desde sempre, desde o dia em que nasci lá no Amparo Maternal e perguntaram à minha mãe (que na época não falava Português) se ela queria me dar pra adoção, que ela não precisava ficar comigo, que uma menina jovem como ela ainda teria outros filhos depois.

Lembrei de quando eu era criança e queria ser branca e loira, porque não existiam Barbies parecidas comigo. Não existiam apresentadoras, fadas ou princesas que ao menos de longe tivessem algo em comum comigo.

Pensar em tudo isso foi me dando um mal estar tão grande, um nó na garganta tão grande, que tinha um sabor amargo de desgosto, de raiva, de vergonha da minha cara latino-americana. Eu, do alto da minha consciência social tive vergonha da minha cara de índia latino-americana.

Quando levantamos da mesa, contei ao Rob o episódio. Ele disse que não viu.
A cada palavra que eu contava, só ia aumentando o nó na garganta. Não aguentei mais e chorei de soluçar. Chorei no meio do corredor do shopping de gente "arrumada e bonita". Chorei de legging desbotada. Chorei com a minha filha no colo.

Nunca saberei o que é que se passou na cabeça da tal garota. Mas só a falta de sutileza com que ela agiu, as palavras e gestos que ela fez e que me fizeram sentir tão mal, já me davam a certeza de que dificilmente ela faria isso com alguém que ela julgasse semelhante a ela mesma.

E ai o Rob, tentando me consolar, disse: "Você não tem que se sentir assim. Você não tem que se sentir culpada. Não é você quem está errada".
E eu disse: "eu sou capaz de conversar por horas sobre todo o aparato que fez essa menina agir como agiu. Mas quando acontece com a gente, não há racionalidade que diminua essa dor que a gente sente".

Passados alguns dias, ainda não sei dizer o nome desse sentimento que ficou. Mas sei que é uma sensação muito ruim, e que eu não desejo a ninguém.
Porque essa sensação está ao lado das coisas mais horríveis pelas quais eu já passei, e que não quero viver novamente.

E é por isso que eu crio uma filha feminista. Uma filha o menos alienada possível. Uma menina cujos modelos não sejam princesas nem Barbies. Uma menina que não tenha vergonha da sua mãe índia, do seu pai pobre, nem por um segundo sequer. Uma mulher tão certa do seu lugar no mundo, que não se sinta diminuída por ninguém. Uma mulher como esta, que como diz a jornalista: "Quando começou a falar, com muita firmeza e propriedade, compreendi que ela tinha tanta consciência de sua identidade, que um ato de  discriminação qualquer não afetava sua segurança."

Eu vou viver todos os dias da minha vida dedicados a evitar ao máximo que minha filha nunca sinta esse nó na garganta horrível. Mas o que eu mais quero nesse mundo, principalmente, é que ela nunca faça alguém se sentir desta forma. Nunca.

domingo, 2 de junho de 2013

Sobre parir.


E quando eu parir de novo, quero tudo diferente.
Quero minha casa, não o hospital.
Hospital é pra gente doente, moço.
Eu não estou doente, eu estou cheia de vida!
Quero só a ocitocina que meu corpo liberar.
Quero calma, respeito, silêncio.
Quero sentir a dor e me entregar.
A dor também é vida, moço.
É a dor da vida (e na vida, a dor é o de menos).
Quero esperar o cordão parar de pulsar.
Quero por perto tudo o que for meu: minha roupa, minha placenta, meus gatos, minha cama, meu cheiro.
Mas só aquilo que eu escolher.
Nada de gente azeda. Nada de esquema pra cesárea.
Quero um abraço, um olhar, afeto.
Quero meu companheiro comigo o tempo que nós quisermos.
Quero que ele também seja tratado com respeito.
Não quero ter que trocar de quarto às pressas, de madrugada.
Não quero ter vergonha do meu lençol sujo de sangue.
Não quero ficar sozinha, chorando de madrugada.
Não quero minha filha internada por procedimento de rotina.
Não quero enfermeira me tratando com desprezo.
Não quero estagiária me mandando dar chupeta pra minha filha.
Quero comer se tiver vontade.
Não quero pedir "por favor" pra beber água.
Não quero "fazer força" se não tiver vontade.
Não quero que esfreguem meu filho. Não quero que furem. Não quero que queimem seus olhos.
Não quero ficar de lado sentindo dor pra "poder colher o exame direito".
Quero pegar meu bebê com minhas mãos.
Quero ficar sozinha com ele se eu quiser.
Não quero dar banho nele às seis da manhã.
Não quero luz artificial, não quero cheiro de álcool.
Não quero que façam sete exames de sangue na minha filha.
Quero desligar o celular.
Quero explodir o computador.
Quero desativar a campainha.
Quero que o bebê saia de mim só quando for a hora.
Quero dançar de novo.
Quero me sentir à vontade pra rir, chorar, gargalhar, cantar, tirar a roupa.
E se eu quiser parir que nem índia (que aliás, é o que eu sou)
Agachada no chão
Não quero gente de branco me mandando pra maca.
Não quero deitar, quero pôr a perna onde eu quiser.
Quero sentir de novo meu bebê passando nos quadris.
Quero ficar fora do ar, de novo, como se estivesse fora do meu corpo, como se me olhasse de cima.
Quero passar a primeira noite abraçada só com a minha família, em silêncio, sem estranhos, sem palpites.
Sem prontuários, sem horários amargos, sem interrupções.
Quero visitas só quando eu autorizar.
Quero ser respeitada.
Quero poder mandar embora as pessoas que não me trazem boas energias.
Quero gritar que nem leoa, quero minha cria só pra mim ali, naquele momento.
Quero poder ouvir meu corpo.
Quero parir como se deve.
Quero um parto só meu, porque eu sou uma só, meu bebê só vai nascer uma vez e eu quero ser a dona desse momento.
Pra poder me lembrar dele o resto da vida e além.
E porque vai ser a última coisa que quero lembrar quando eu morrer:
o dia em que fui eu que fez a vida acontecer!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

É UMA MENINA!

Hoje, como em muitos dias eu fui passear com a minha filha, e de umas dez pessoas que mexeram ou falaram com ela ao longo do passeio, sete disseram que ela era um menino.
Isso, de fato, me acontece muitas vezes ao dia, muitas vezes na semana, muitas vezes ao mês, todos os meses. Eu ficava chateada no começo, mas hoje em dia eu acho bem divertido, e às vezes nem corrijo. Quando a interação se estende e essas pessoas perguntam o nome, eu me divirto dizendo que é Luna, olhando as caras perplexas das pessoas por terem se enganado tanto, ou ainda mais, por verem que eu coloquei um nome tão esquisito num MENINO.
A razão das pessoas confundirem tanto a minha filha com um menino, é que de vez em quando (alias, na maioria das vezes) é que ela NÃO ESTÁ VESTINDO COR DE ROSA.
Não importa se não é uma cor "característica" de menino (observem as aspas, ok?), sei la quais são, acho que verde, azul, marrom, sei la. Isso não importa. Não importa se ela está de branco ou de vermelho, por exemplo. Se ela não está de rosa, logo, ela NÃO É, NÃO PODE SER uma menina.
Eu ouvi muitas piadinhas infames ao longo da gravidez quando as pessoas me perguntavam pela preferência de cor e eu dizia "estamos evitando o rosa". Me chamavam de esquisita, diziam que eu queria vestir minha filha de menino, diziam que isso era bobagem, que rosa era uma cor linda, diziam todo tipo de coisa.
E olha só, eu acho que rosa realmente é uma cor bonita, como várias outras cores. Nós só não queríamos um guarda-roupa monocromático. Ah, e ainda vale comentar que apesar dessas recomendações, ainda ganhamos centenas de peças cor de rosa.

E hoje, como não podia ser diferente, ela foi chamada de menino de novo. Não é isso que me incomoda mais. Mas me incomoda saber que esses papeis de gênero estejam tão arraigados na cabeça da gente, que tem algumas pessoas que até me corrigem, quando eu digo "ela". Ai elas respondem, por exemplo "ah é, ele faz isso?"
E o mundo se transforma quando as pessoas finalmente aceitam que ela é uma menina. Em uma dessas lojas, o rapaz quis tanto ser simpático achando graça ela estar brincando com a minha carteira. Dizendo que mulher é fogo, que desde pequenininha elas gostam é de cartão de crédito.
Acho que eu preferia a simpatia de uma porta naquele momento. Mas eu sorri azedo e fiz cara de paisagem. E passou.

Outra coisa que é crucial para que as pessoas determinem o sexo da minha filha é o fato dela ter dez meses e não ter um brinco pendurado na orelha. E isso me faz lembrar de uma vez em que eu estava no metrô e depois de ter corrigido um cara idiota falando vários achismos machistas pra minha filha dizendo que ela era uma MENINA, ele ainda argumentou comigo dizendo: "mas ela não tem brinco!!". Ai eu disse "ela vai ter brinco QUANDO e SE ela quiser". Ai para fechar com chave de ouro ele me responde "Ah ta, é bom assim, que ela também já pode escolher em que time ela vai torcer". 
Nem vou comentar tamanha asneira. Vou deixar vocês refletindo ai um minutinho, pode ser?

A última história que eu quero contar é uma que eu adoro contar. Estava recém-parida, ainda no hospital, e entrou uma linda estagiária fazer um exame idiota na minha filha. "Vamos meninão, fazer tal coisa X?". Deixei, achei que não valia a pena corrigir mais uma vez. Mas ela insistiu. "Ah, mas que meninão grande!" "Como você é comprido!" "Que menino lindo!". Eu super compreendia aquela simpatia toda, mas eu tive que dizer É UMA MENINA! E ela argumentou comigo: "Ah mas é que ela está de azul!". E eu do alto da minha camisola azul listradinha, disse: "Eu também estou de azul, não sou uma menina?"
E ai ela saiu sem graça e nem fez o exame. 

Era uma prévia do que eu viveria em uma vida toda pela frente.

Mas eu sou tão insistente quanto as prateleiras abarrotadas de produtos rosa para meninas. E eu tenho o maior orgulho da minha filha vestindo o bodyzinho branco dos Beatles*, que não tem brinco, imitando um zumbi, suada e suja de tanto brincar e rolar no chão, passeando em seu carrinho azul marinho. E ai eu sei que eu e o pai dela estamos fazendo um excelente trabalho, criando uma teimosinha contestadora, tão teimosa e tão contestadora quanto eu e ele, juntos.

*Powered by tia Dri.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Carta para Luna sobre o ano que chegou.

Luna,
Passou tanto tempo desde que eu escrevi aqui a última vez...  Estou tentando reunir em vários cantos as lembranças do nosso presente, porque o cotidiano sempre leva os detalhes embora... Às vezes eu guardo fotos, às vezes eu te escrevo cartas e às vezes escrevo blogs... Mamãe é assim, meio avoada, meio bagunçada, mas acho que você me entende.

Chegou mais um ano, e eu me lembro que a essas alturas do ano passado eu estava pensando no seu Chá de Bebê com a sua tia Ju, que é sua madrinha. Foi um dia feliz e gostoso e nós estávamos muito felizes. Boas lembranças dessa época do ano.

Este ano novo chegou lindo e calmo, como eu senti que ia ser. Viramos a meia noite do dia 31 com você no colo, papai e eu junto com você e mais um montão de gente, na casa da sua tia Jana, depois fomos pra casa da sua tia Rocy. Você amou o mar, como peixinha que é, igual seu pai. Era pouco mar pra tanto sorriso e fascinação. Você gostou tanto do mar que aprendeu a falar "água" e apontava o mar e falava "água" e eu te olhava feito boba apaixonada.


Você brincou na areia, você sentou na beira, você gostou das ondas e de enterrar seu pé na areia molhada. E eu gostei de te ver tão feliz, desejando lembrar pra sempre desse sorriso que só você sabe dar.

Eu e o papai conversamos sobre como você mudou, e agora tem um rostinho cada vez mais de criança e menos de bebê. Pra pontuar essa fase, até chegou um dentinho! Mas você não gosta de mostrar, e eu te respeito, filha, porque teu corpo é teu. E nem eu, nem seu pai, nem ninguém, nunca, podem te tirar essa propriedade de ser livre para decidir sobre ele.

Outro dia eu li uma coisa que me fez chorar de lavar a alma. Li que nossos filhos nos perdoam dezenas de vezes todos os dias, e eu chorei de gratidão, filha, porque você perdoa todos meus tropeços de mãe de primeira viagem. Só as lembranças ruins do seu nascimento que vão demorar pra apagar e pra perdoar, mas o tempo é a gente que faz, né filha?

...

Também queria te contar sobre seu primeiro natal. Como sempre fizemos eu e seu pai, enfeitamos uma árvore de verdade com as bolinhas e luzinhas, porque a árvore de verdade é vida, filha, e a casa fica com um cheirinho bom que só tem no Natal. Também decoramos o jardim, e você se divertiu pendurando enfeites na pitangueira, na amoreira e em todas as plantinhas que temos lá fora, brincando com os gatos e comendo morango colhido na hora.
No dia 24 jantamos na casa da sua tia Rocy com a família da mamãe, e almoçamos no dia seguinte na casa da vovó Eva com a família do papai. Lá te esperavam um monte de presentes e um monte de carinhos, e você curtia cada abraço, cada colo, cada beijo e eu te olhava orgulhosa. Depois fomos pra praia e foi a festa que eu te contei lá em cima.

Agora, quando eu paro e penso quanta coisa mudou na casa, em você, em mim, no seu pai, em tudo, penso que foi com uma velocidade espantosa. E fico feliz de saber que a vida está mais bonita só porque você chegou. Você não me deixa ficar triste. Você é tão esperta, tão doce e tão forte que às vezes sou eu quem pede colo pra você. E a gente se dá colo e a gente dorme abraçadinhos, nós duas e o papai, porque é assim que a vida vale a pena.

Eu espero que você lembre dessas coisas com a mesma alegria que eu, e que um dia vejamos as fotos e sintamos a mesma coisa boa que eu sinto agora, só de te contar tudo isso pra você poder (re)lembrar um dia.

Um beijo filha, e obrigada sempre, por cada dia, cada momento, cada perdão, e cada sorriso que me renova o tempo todo. Te amo.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Por uma vida mais bonita

Semana curta pra tantos afazeres - todos com a Luna a tiracolo -.
Meu corpo cansa, minha cabeça também, mas cuido deles para que possamos seguir adiante.
Muita mudanças chegando, muitas fazendo acontecer.
Abrindo as portas do coração e da casa para que cheguem os novos ares.
Que o velho fique pra trás, que as energias se renovem, que essa alegria que eu sinto lá no fundo do peito não se esgote nunca...
A casa se enche de vida, de coisas boas: riso de nenêm, cheiro de comida pronta, um varal bem colorido, música boa de ouvir, boa de cantar, uma conversa com amigos queridos, um abraço de quem a gente ama, uma dança que vem de dentro...
As plantas se enchem de verde, a janela aberta deixando a luz do sol entrar...
A lua cheia no céu e seu silêncio são a coisa mais linda...
Deixo meus sinceros desejos pra que a negatividade vá embora, pra que a alegria seja persistente, pra que todos possamos sorrir de verdade, com os olhos, do jeito que minha filha faz todos os dias. Ela que chegou no mundo agora e eu que estou aprendendo como viver. A vida é mesmo muito curiosa...
Desejo que nossa existência não seja vã, que não fique a sensação de não ter vivido nada, que olhemos as coisas simples, que saibamos ser donos de nossas escolhas, que tenhamos coragem de viver o que faz sentido pra nós mesmos...
Que o negativo não nos atinja, que façamos a convivência mais agradável, que gargalhemos mais, que sintamos o sabor da vida.
Que saia a indiferença, a intolerância. Que fique a alegria, que fiquem as boas lembranças.
Que paremos de olhar o lado ruim, que provoquemos mais sorrisos e menos lágrimas, que possamos ser mais felizes.
Que abracemos mais, que caminhemos mais.
Que amemos mais.
Que durmamos tranquilos.
Boa noite.

domingo, 17 de junho de 2012

Marcha do Parto em Casa: pela liberdade de escolha da mulher.

Hoje foi um daqueles dias que a gente leva pra sempre. Fui às ruas, com minha filha no sling, meu marido, uma grande amiga - companheira de vida e agora de luta - e grandes amigos que solidarizaram com a ação e marcharam junto.

Fui às ruas, gritar de peito aberto meus ideais e minha luta. Luta essa, que compartilho com milhares de mães, pais e filhos que desejam nascimentos mais dignos para quem chega a este mundo. Ideais esses que incomodam tanto quem está tão inserido no sistema e não quer olhar além do que se vê. Cada mãe, amiga que eu reencontrava, cumprimentava, cada bebê que eu revia era mais um grãozinho de força que se agregava dentro de mim. E depois disso, muitas coisas vieram à tona.

Por exemplo, pensei que vale a pena ter um ideal pelo qual viver. Que um filho nos muda completamente. Que há lugares onde eu não sou bem-vinda e não devo insistir para bater com a cara na porta. Que não, eu não consigo viver inserida nesse sistema tão quadrado, a institucionalização completa de ritos naturais, a terceirização da vida... Sobre a minha filha, decido eu por enquanto. Um dia ela terá as próprias decisões e ainda que isso me custe, me esforçarei para respeitar o máximo que puder. Pode vir com seus conselhos, seus dedos apontando na minha cara: da minha vida quem cuida, sou eu.

Pensei também que o homem precisa de companheiros de sonho, daqueles que respeitam suas decisões, que estão dispostos a discutir coerentemente caso não concordem, mas que acima de tudo, não invadem sua vida com julgamentos e imposições. E que esses companheiros, andam raros hoje em dia.
Hoje, foi um dia que eu sorri de saber que eu tenho isso, que eu tenho pessoas com quem posso contar, com quem posso conversar, com quem posso sentar e sonhar.

Me chame de esquisita, me chame do que quiser. Mas eu sou muito feliz de saber por que vivo, e que a cada dia levanto para mudar o mundo em que minha filha vai viver. Que respeitarei suas escolhas, e em vez da força, usarei a conversa aberta, sincera e coerente para discutir pontos de vista. Sou muito feliz de ter ao meu lado um homem que não tem vergonha de amar e dizer o que pensa, e que pensa como eu - porque de nada serve o relacionamento ondem um manda e o outro ignora. Aqui em casa se conversa, se discute, se sonha.

Não me sinto mal por ter menos dinheiro, por não me encaixar nesses nichos sociais bizarros, cheios de hipocrisia. Às vezes dói, mas essa não é a vida que me pertence. Ando a pé, moro em um fundo de quintal, conto migalha pra pagar aluguel. Não fiz enxoval nos EUA. Sequer fiz enxoval. Mas sei o que é deitar abraçado com as duas pessoas mais importantes da minha vida. Sei o que é dormir sentindo a respiração da minha filha e sorrir. Sei o que é plantar uma flor, mexer na terra, olhar o céu, estar de consciência limpa, pensar, refletir, existir sem viver em vão.

Fique você com suas convenções reacionárias. Fico eu com meu grito de liberdade, de respeito. Para que se respeite um pouco mais, para que se denigra um pouco menos. Para que se sonhe mais, para que se pise um pouco menos. Para que se respeite o corpo da mulher, para que se enxergue a misoginia. Para que cada mulher possa ser dona de seus processos naturais, para que possa conhecer a verdade sobre suas opções, para que não seja enganada. Para que cesse o crime de gênero, para que cesse a mutilação genital e mutilação de ideias. Para que não só as mães se EMPODEREM, mas também seus maridos, suas famílias. Para que a mulher lembre que ela é capaz, que seu corpo é capaz. Que o corpo é dela e portanto, a escolha também.

Eu não pari em casa. Pari no hospital. Foi uma decisão consciente, com toda a informação que tive à disposição, decidi com tranquilidade, apoiada por pessoas que estavam à minha volta que me respeitaram o tempo todo. Escolhi parir sem anestesia e sem remédio pra dor. Escolhi esperar a hora da minha filha, a hora em que ela estaria pronta. Doutor nenhum veio me dizer a que horas isso tinha que acontecer. Contei com pessoas maravilhosas que estiveram ao meu lado, contei com meu companheiro de sempre, meu marido, para estar ao meu lado e me ajudar a lidar com a dor. Era olhando nos olhos dele que eu mergulhava na dor e deixava acontecer. E assim passaram-se as horas. Quis ver meu corpo acontecer, quis sentir meu corpo se abrindo, minha filha descendo suavemente. O tempo todo segura da minha saúde e da saúde da minha filha, apoiada por profissionais que me davam essas garantias e que no auge da contração me lembravam de que sim, eu era capaz de parir minha filha, tinha todas as condições para isso. Nunca esqueço de um médico que me atendeu, olhou nos meus olhos e disse: tenha um parto normal - é a melhor coisa que você fará pela sua filha.

Na hora que a Luna nasceu, não senti dor, não gritei, não houve sofrimento. Foi um silêncio sublime: sai do corpo e voltei, o tempo parou, o universo parou. Meu universo parou para que eu pudesse receber a pessoa mais importante da minha vida, com todo o respeito que esse momento merecia. Naquele momento eu era gigante, eu era mulher, eu era perfeita. Eu não ouvia nada, eu não via nada - eu só enxergava a mão do Robinson segurando a minha. Eu, literalmente, transbordei de felicidade. Eu inspirei, e quando expirei de volta, minha filha tinha nascido.
Naquele minuto, fiz um pacto silencioso com minha filha e aquele foi o momento dela deixar a barriga. Foi naquele momento que minha alma veio à tona e me despedi da gravidez para me tornar mãe. Naquele momento eu deixava de ser uma só e passava a ser duas.

Tudo isso eu ia revivendo enquanto marchava gritando pelas ruas tudo aquilo que gestei e pari, os dias de empoderamento que foram chegando aos poucos na minha vida, as reflexões que vivi desde que peguei aquele exame positivo. Era um punhado de emoções: chorei, ri, gritei, fui eu mesma. Estava do lado de pessoas importantíssimas, que marcharam comigo e fizeram parte desse momento tão único.

E depois dessa passeata que mexeu tanto comigo, deixo apenas uma palavra: "Sonhe!". Dá um pouco de trabalho, mas no fim, garanto que vale a pena. Assim a vida não passa em branco. Assim a vida fica mais bonita. Garanto.

No metrô indo para a Marcha do Parto Em Casa.

Concentração no parque Mário Covas. 
- "O Jorge Kuhn é meu amigo: Mexeu com ele, mexeu comigo."

Enquanto gritávamos "Marido empoderado: ficou no parto do meu lado" eu me enchia de orgulho do homem que escolhi para ser o pai da minha filha. Seu cartaz dizia: "Pai que respeita e ama a mãe de seus filhos, apoia e defende a decisão dela".

 Luna em sua primeira manifestação. A primeira de muitas. Se algo vou ensinar pra ela, é que ela tem sim, que lutar por aquilo que acredita. Por isso é que meu cartaz dizia: "Marcho hoje para que minha filha possa escolher amanhã".

Amigos de sonho: desses que têm suas próprias lutas e que respeitam as tuas. Desses que não precisam te diminuir, desses que sabem que a vida se faz no coletivo, não nos próprios umbigos.

 Muitos pais, mães, bebês, unidos pelo pedido de RESPEITO à liberdade de escolha da mulher. Para que ela possa acessar toda a informação à qual tem direito. Para que cessem as mentiras, para que cesse a violência.

"No hospital eu sou mãezinha, na minha casa eu sou RAINHA!"



  Eu e Dri: amiga empoderada, dessas que a gente não encontra por ai. Sempre consciente, sempre coerente. Foi muito valioso viver isso do teu lado Dri, de verdade. O cartaz dizia: "Escolha informada: essa é minha DECISÃO!"


- "Pró-Matre, Santa Joana, aqui só tem cesariana! Pró-Matre: cê não me engana! Aí só tem cesariana!"

- "No Brasil ninguém repara, mas o dotô só quer fazer cesária!"
- "Parto com respeito: é meu esse direito"


 - "Não sou 'mãezinha', eu sou MULHER: eu dou à luz onde EU QUISER"


Não fiz o juramento de "na saúde e na doença", nem aquele da "alegria e da riqueza", muito menos aquele de que "até a morte os separe". Mas levo em mim a certeza de que para que o caminho exista é preciso querer chegar ao mesmo lugar. E andar na mesma direção, lado a lado, não quer dizer estar presos: quer dizer ser livres para escolher onde chegar, saber descansar quando for necessário e saber parar quando chegar a hora.

E de tanto chorar, pensar e sentir, voltei pra casa de alma lavada e revigorada para o porvir, porque a verdadeira luta é aquela que a gente constrói dia após dia.


terça-feira, 12 de junho de 2012

A cada dia, uma alegria.

Escrevo na véspera de completar 3 meses com minha pequena fora da barriga. Já comentei que parece um século atrás. Ela está linda, esperta, cada dia tem uma novidade, uma gracinha, um motivo pra eu ficar longos minutos só olhando pra ela. E é cada vez mais certo o que eu falei pra uma grande amiga que nos visitou hoje: a Luna é a melhor coisa que me aconteceu na vida.

Luna e o móbile indiano comprado na 25 de março.